Relembrar sim, mas só às vezes

Ah essa mania de esquecer das coisas bobas que traziam alegria, de exigir demais da felicidade e ignorar o que de mais simples ela pode oferecer. Os lugares, salvo pequenas modificações, ainda são os mesmos, ss verdadeiras mudanças acontecem em nós. Resolvi então deixar de lado essa mania de crescer e colocar num canto escondido da memória o que parece coisa de criança. Voltei ao lugar que era refúgio e lá me deixei ficar, sem pressa, sem desculpas. Dessa vez não mais com os olhos viciados que mal reparam no que acontece ao redor, que veem o todo, mas são incapazes de enxergar os detalhes. Olhei com olhos de criança que tudo encanta, intriga e sensibiliza. Ali parada senti cheiro de grama cortada, de livro velho e empoeirado, de infância. Mais do que qualquer coisa, senti falta de tudo isso. Senti falta dos joelhos ralados, do choro compulsivo de quem foi contrariada, do cabelo amarrado num rabo mal feito de quem só se importava em aproveitar uma tarde ensolarada. Às vezes é preciso lembrar disso tudo para não esquecer aquilo que vale a pena, para não deixar passar o que deveria ser permanente, mas só às vezes. Ser criança é bom, mas melhor ainda é crescer, descobrir o que o mundo ali fora tem para nos oferecer. transformar os sonhos de infância em realizações de gente grande. Sabe de uma coisa? Bom mesmo é viver.

Estúdio ao Vivo: Você diz que o cotidiano é um Teatro Mágico. O que faz do cotidiano um Teatro Mágico?

  • Fernando Anitelli: O que faz é que o tempo todo nós somos um personagem. O trabalho nos cobra uma postura de um personagem. Eu chego em casa pra falar com a família, é outro personagem. Tem uma balada sexta-feira à noite, é outro personagem. A mulher foi viajar, o cara vira outro personagem… E cria uma relação hipócrita, as pessoas criam uma relação de mentira umas com as outras nesse mundo gigante. Todo mundo vira um personagem, que fala aquilo que bem entende, foge na hora que acha conveniente… Então, estamos vivendo num Teatro Mágico. A questão é: quem escreve o nosso roteiro? Se a gente é um personagem, poxa, vamos trazer à tona outros personagens, não vamos rir da mesma piada, não vamos ter o mesmo medo há 10 anos. Vamos nos propor a amadurecer. O Teatro Mágico do nosso cotidiano nos cobra sempre um personagem um tanto bem maior. E acho que a gente tem que estar disposto a trazer novos personagens à tona, de dentro de nós.

102 anos de uma paixão

      

Quando ainda no início do século XX os irmãos Poppe realizavam o sonho de criar um novo clube na capital gaúcha, eles certamente não tinham a mais remota noção das proporções que tal feito alcançaria. Mal sabiam que ali começavam a escrever a história de uma nação que, apesar de humilde, conquistaria até mesmo as plagas mais distantes. Assim nascia o Sport Club Internacional, o clube do povo.

Ao longo dessa história que hoje completa 102 anos, foram grandes as dificuldades, mas maior ainda foi a vontade de vencer, de ser grande, mais do que isso, de ser GIGANTE e, cá entre nós, isso nós conseguimos com louvor. E se falo em “nós” é porque isso não seria possível sem o apoio da torcida alvirrubra, sem essa legião de apaixonados que ajudou a transformar cada sonho em realidade. Tijolo por tijolo, a cada canto de incentivo, nas lágrimas de decepção e de euforia, no manto carregado como segunda pele, no grito de gol, em cada mínimo detalhe…Enfim, de uma forma ou outra todos demos nossa contribuição, nos tornamos parte desse todo, somos um pedacinho desse Inter.

E foi esse mesmo Inter que nos ensinou valiosas lições sobre não desistir até o segundo final, sobre acreditar quando todos já dão a derrota como certa e, não menos, sobre conservar a humildade quando a vitória parece o curso normal. Mas que a verdade seja dita: completar mais de cem anos de história é algo louvável, porém é um feito que muitos alcançam. O difícil é ter tantos anos na bagagem, como muitos, e nunca ter disputado a Segunda Divisão, como poucos.

Se hoje és gigante, não é por acaso, és CAMPEÃO DE TUDO e não por sorte. Desde o primeiro momento fui Inter, embora ainda não entendesse a mística que envolve teu nome. Depois, já capaz de usar a razão e fazer minhas escolhas, ela não fez a menor diferença, quem te escolheu foi esse coração alvirrubro que, enquanto bater, vai te acompanhar e vibrar por ti. Hoje, mais uma vez, bato no peito e com toda a convicção digo: EU SOU INTER ATÉ O FIM!

Parabéns, Sport Club Internacional, que tu sigas sempre tua senda de vitórias!

Meu corpo se deixa levar nesse lento embalo da rede, meu coração, como se não pertencesse a esse todo, desenha seu próprio ritmo acelerado, pulsa como se já não coubesse mais nesse peito. É um misto de tantos sentimentos e sensações que nem sei dizer e de outras tantas coisas que insisto em não admitir. É assim que milhares de vezes tudo aquilo que deveria ter se transformado em palavra foi deixado num canto escondido da memória e não se tornou parte da história de nós dois. 

Todos esses fragmentos aparentemente tão soltos e independentes são parte daquilo que sou - ou pelo menos do que fui quando os escrevi. Não trazem nada novo ou revolucionário, é só um pouco de dia a dia misturado com uma dose de sentimento, são lembranças carregadas de nostalgia, coisas passageiras que decidiram ficar. O que pouco a pouco vou construindo aqui é imperfeito, é passível de erros, é humano. E como o humano me encanta.